
Corpo e Sofrimento
Quando o sofrimento passa pelo corpo
Há um tipo de sofrimento que não chega ao consultório dizendo o próprio nome. Ele chega como dor, como falta de ar, como enjoo antes de sair de casa, como noites em claro, como uma relação com a comida que virou campo de batalha, como a impossibilidade de se olhar no espelho sem detestar o que se vê.
Muitas dessas pessoas já passaram por vários médicos. Fizeram exames que voltaram normais. Ouviram que era ansiedade, que era estresse, que era coisa da cabeça. E saíram de lá com a sensação de não terem sido levadas a sério.
O corpo não mente, e não fala português
O corpo diz alguma coisa. Mas ele não diz em frases. Ele diz em sintoma, em gesto, em recusa, em excesso.
Quando o corpo se torna o lugar onde o sofrimento se instala, tratá-lo apenas como objeto biológico não resolve, e tratá-lo apenas como metáfora também não. É preciso as duas coisas ao mesmo tempo: exame clínico rigoroso e escuta do que aquele sintoma está tentando dizer.
É esse cruzamento que orienta meu trabalho, e é sobre ele que pesquiso, ensino e escrevo.
Imagem, espelho e a exigência de ser vista
Vivemos num tempo em que a imagem do corpo é medida, comparada, editada e exposta o tempo todo. Para muita gente isso é ruído de fundo. Para algumas pessoas, sobretudo mulheres e adolescentes, vira sofrimento intenso e persistente.
Não se trata de vaidade, nem de falta de força de vontade. Trata-se de um problema que é ao mesmo tempo psíquico, familiar, cultural e clínico, e que precisa ser tratado como tal.
Esse é o tema que coordeno na universidade, no projeto de extensão Espelho, Espelho Meu, da UFMG.
O sujeito antes do diagnóstico
Winnicott ajuda a pensar algo importante aqui. Muita gente aprende cedo a apresentar ao mundo uma versão de si que funciona, que agrada, que não incomoda. Essa versão pode dar conta durante anos. E costuma ser exatamente ela que desaba quando o corpo começa a falhar.
Por isso não trabalho apenas com a remissão do sintoma. Trabalho para que a pessoa possa existir de um jeito menos exigente consigo mesma.
